Poucas explicações são tão recorrentes em consultórios de nutrição quanto a frase “acho que é a minha tireoide”, geralmente usada para justificar dificuldade de emagrecimento ou ganho de peso persistente. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e fundador do Método LP, explica que a tireoide realmente exerce papel central na regulação do metabolismo, mas que atribuir a ela toda a responsabilidade pelo peso corporal costuma ser uma simplificação que não encontra respaldo completo na literatura científica atual.
A tireoide é uma glândula pequena, localizada na região frontal do pescoço, responsável pela produção de hormônios que regulam funções essenciais do corpo, incluindo temperatura corporal, frequência cardíaca e taxa metabólica basal. Diante desse panorama, é compreensível que alterações no funcionamento dessa glândula impactem o metabolismo, mas a ciência mostra que essa relação é bem mais moderada do que o senso comum costuma sugerir.
O hipotireoidismo realmente causa grandes ganhos de peso?
Sociedades médicas de referência em endocrinologia reforçam que o hipotireoidismo não deve ser considerado causa de obesidade, já que o ganho de peso diretamente associado a essa condição costuma ser moderado, geralmente entre dois e cinco quilos, relacionado principalmente à retenção de líquidos e à redução do gasto energético em repouso. Um estudo brasileiro de acompanhamento de longo prazo, conduzido com mais de nove mil participantes com função tireoidiana inicialmente normal, identificou que cerca de sete por cento desenvolveram algum distúrbio de tireoide ao longo de quatro anos, sendo o hipotireoidismo subclínico a alteração mais comum encontrada.
Esse dado é importante porque mostra que alterações tireoidianas são relativamente frequentes na população, mas isso não significa que expliquem, sozinhas, quadros de ganho de peso mais expressivo. Na avaliação do fundador do Método LP, Lucas Peralles, um dos equívocos mais comuns observados na Clínica Peralles é o paciente que atribui todo o excesso de peso acumulado ao longo de anos exclusivamente à tireoide, quando exames laboratoriais muitas vezes revelam alterações discretas, incapazes de justificar isoladamente uma mudança corporal tão significativa.
Por que o hipotireoidismo subclínico gera tanta confusão entre pacientes e profissionais?
O hipotireoidismo subclínico é caracterizado por alteração discreta nos níveis do hormônio estimulante da tireoide, enquanto os hormônios tireoidianos propriamente ditos ainda permanecem dentro da faixa considerada normal. Estudos indicam que esse quadro afeta uma parcela relevante da população adulta, muitas vezes sem sintomas evidentes, sendo descoberto apenas durante investigação de queixas inespecíficas, como cansaço ou dificuldade de concentração.

Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que existe associação entre hipotireoidismo subclínico e síndrome metabólica, ainda que a relação de causa e efeito entre essas duas condições permaneça incerta, segundo especialistas da área. Conforme informa Lucas Peralles, essa nuance científica reforça a importância de investigar cuidadosamente cada caso, evitando tanto a negligência de alterações reais quanto o exagero na atribuição de sintomas complexos a uma única causa hormonal isolada.
Quando realmente vale a pena investigar a tireoide como parte do processo de emagrecimento?
Sinais como fadiga persistente, intolerância ao frio, queda de cabelo e alterações menstruais, combinados à dificuldade real de emagrecimento, mesmo diante de rotina alimentar e de treino adequadas, justificam investigação laboratorial completa, incluindo exames de hormônio estimulante da tireoide, T4 livre e, quando necessário, anticorpos tireoidianos. Tal como elucida Lucas Peralles, esse tipo de avaliação detalhada ajuda a diferenciar alterações discretas, que podem ser apenas acompanhadas, de quadros que realmente demandam tratamento médico específico.
Esse detalhe, frequentemente ignorado em conversas informais sobre metabolismo lento, reforça a importância de um diagnóstico preciso antes de qualquer conclusão apressada. Na prática da Clínica Peralles, pacientes com suspeita de alteração tireoidiana são sempre encaminhados para avaliação endocrinológica complementar, já que o acompanhamento nutricional funciona de forma mais eficaz quando articulado com o diagnóstico médico adequado.
Como equilibrar a real influência da tireoide com outros fatores do emagrecimento?
Reconhecer o papel real, mas limitado, da tireoide no ganho de peso ajuda o paciente a não abandonar outros aspectos igualmente importantes do processo, como qualidade alimentar, treino de força e consistência comportamental ao longo do tempo. Tratar adequadamente uma alteração tireoidiana real, quando existente, é fundamental, mas raramente substitui a necessidade de ajustes mais amplos na rotina de vida.
Portanto, Lucas Peralles salienta que o objetivo nunca é minimizar condições médicas reais, mas evitar que elas se tornem uma explicação única e simplificada para um processo que, na grande maioria dos casos, depende de uma combinação muito mais ampla de fatores metabólicos, comportamentais e nutricionais.

