Poucas decisões de tecnologia geram discussões tão longas quanto a escolha sobre como desenvolver um sistema, e Murilo Moura Alencar, board member e Tech, People & Game Strategist, sinaliza que essa conversa costuma girar em torno do preço inicial, quando deveria girar em torno de estratégia. Um sistema próprio parece caro no começo. Um software comprado parece barato. As duas impressões podem ser enganosas.
O consultor Geoffrey Moore ajudou a organizar esse debate ao diferenciar, no livro Dealing with Darwin, de 2005, as atividades centrais, que diferenciam a empresa no mercado, das atividades de contexto, que precisam ser bem feitas, mas não criam vantagem competitiva. A seguir, como os dois caminhos se comparam à luz dessa distinção.
Quando desenvolver faz sentido?
Construir internamente tende a valer a pena quando o sistema está ligado diretamente ao que torna a empresa única. Um algoritmo de recomendação que define a experiência dos clientes, uma plataforma que sustenta o modelo de negócio ou uma ferramenta que incorpora conhecimento exclusivo são exemplos típicos.
Nesses casos, depender de um fornecedor pode significar abrir mão de controle sobre algo estratégico. Desenvolver permite adaptar o sistema com rapidez, evoluir no ritmo do negócio e evitar que concorrentes tenham acesso à mesma solução simplesmente assinando o mesmo serviço.
Quando comprar faz mais sentido?
Para atividades de contexto, como folha de pagamento, contabilidade, correio eletrônico ou gestão de chamados, soluções de mercado costumam ser mais eficientes. Esses sistemas resolvem problemas comuns a milhares de empresas, e os fornecedores especializados investem continuamente em melhorias, segurança e conformidade com a legislação.
Murilo Alencar pondera que desenvolver internamente algo que o mercado já oferece com qualidade costuma desviar talentos do que realmente importa. Equipes técnicas gastam tempo mantendo sistemas que não diferenciam a empresa, enquanto projetos estratégicos ficam esperando. Avaliar também a saúde financeira do fornecedor e a facilidade de migrar dados ajuda a evitar surpresas no futuro.
O custo que não aparece na proposta
A comparação inicial costuma considerar apenas o preço de aquisição ou o custo de desenvolvimento. O custo total, porém, inclui manutenção, atualizações, segurança, integração com outros sistemas e treinamento ao longo de anos.
Sistemas internos exigem equipe permanente para evoluir e corrigir problemas, e esse custo raramente entra na conta inicial. Soluções compradas, por sua vez, trazem reajustes de licença, limitações de personalização e dependência das decisões do fornecedor. Na visão de Murilo Moura Alencar, a análise só é honesta quando projeta esses custos para pelo menos três a cinco anos.
Caminhos intermediários
A escolha não precisa ser binária. Muitas empresas compram plataformas para a base comum e desenvolvem apenas as camadas que realmente as diferenciam. Também é comum começar com uma solução de mercado e, à medida que o processo se torna estratégico, substituí-la gradualmente por algo próprio.
O importante é que a decisão seja revisitada periodicamente. O que era diferencial há alguns anos pode ter virado padrão de mercado, e o que era apenas operação pode ter se tornado vantagem competitiva. Revisões anuais do portfólio de sistemas ajudam a identificar essas mudanças a tempo.
A pergunta certa
Antes de discutir preço, vale perguntar se aquele sistema ajuda a empresa a se diferenciar dos concorrentes. Se a resposta for sim, desenvolver ou personalizar profundamente tende a ser o caminho. Se for não, a melhor escolha costuma ser a solução que resolve bem o problema com o menor esforço possível.
Para Murilo Alencar, essa lógica simples ajuda a concentrar os recursos mais escassos, como tempo de engenharia e atenção da liderança, onde eles geram mais valor. E evita que a empresa gaste energia reinventando o que outros já fazem bem.

