Estudo aponta risco alto ou muito alto em dezenas de trechos de areia do litoral norte, sul e da Baixada Santista, com Ubatuba entre os pontos mais críticos
O avanço do mar sobre as praias do litoral de São Paulo deixou de ser uma preocupação distante para se tornar um problema concreto em municípios que vivem do turismo de praia. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), que integra a versão atualizada do Mapa de Risco de Erosão Costeira Crônica e Inundação Costeira na Orla Oceânica do Estado de São Paulo, identificou dezenas de trechos de areia com grau elevado ou muito elevado de vulnerabilidade à erosão. O fenômeno reduz a faixa de areia ao longo da costa e pode comprometer áreas urbanas, ecossistemas e construções próximas à orla, além de aumentar a vulnerabilidade dos municípios litorâneos diante de ressacas e eventos climáticos extremos.
O que o mapeamento revela sobre o litoral paulista
O estudo apresenta o nome das praias, o município e o grau de vulnerabilidade ao avanço do mar em toda a costa do estado. Segundo os pesquisadores responsáveis, cerca de 40% da costa brasileira já sofre com a erosão costeira, um processo que combina causas naturais e humanas. O problema é provocado por uma combinação de fatores, como as mudanças climáticas, a elevação do nível do mar, alterações no regime de chuvas e ações humanas.
Ubatuba aparece entre as cidades mais afetadas do trecho norte da costa paulista. Conhecida por reunir mais de 100 praias e ser um dos principais destinos turísticos do litoral norte paulista, a cidade concentra diversas áreas classificadas entre os níveis alto e muito alto, evidenciando a necessidade de monitoramento constante. Entre as praias com maior grau de risco estão Fazenda, Almada, Engenho, Ubatumirim, Puruba, Vermelha do Norte, Barra Seca, Perequê-Açú, Vermelha do Centro, Cruzeiro, Praia Grande, Vermelha da Fortaleza e Maranduba.
Ocupação urbana intensifica o problema
Pesquisas conduzidas por universidades paulistas reforçam esse diagnóstico. Um levantamento que mapeou toda a linha de costa do estado apontou que o litoral paulista possui 245 km de estruturas artificiais na linha de costa, o que equivale a três vezes a distância entre São Paulo e Santos. Segundo os autores, as áreas em frente às praias estão altamente urbanizadas em quase todo o estado, exceto nos municípios do litoral sul, o que exige planos e ações eficazes para preservar os manguezais e restingas remanescentes e restaurar áreas alteradas.
O pesquisador André Pardal, coautor de um dos estudos sobre o tema, alerta para a dimensão do problema nas próximas décadas: projeções indicam que as praias podem recuar até 100 metros até o fim do século devido ao aumento do nível do mar e à erosão, e o processo já observado em Ilha Comprida pode se tornar comum em todo o litoral paulista. Segundo a pesquisadora Regina Célia de Oliveira, do Instituto de Geociências da Unesp, a situação em Ilha Comprida já é crítica: a professora afirma que a erosão ali é preocupante porque a cidade vem sendo engolida pelo mar ao longo dos anos, forçando parte da população a deixar suas casas. Maredeciencia
Estruturas humanas alteram o movimento natural da areia
Um dos fatores mais citados pelos especialistas é a interferência das construções litorâneas no transporte natural de sedimentos. Segundo o Governo do Estado de São Paulo, obras como portos e prédios à beira-mar, especialmente na Baixada Santista, mudaram completamente o jeito que a areia se move na praia, resultando na perda desse sedimento. A recomendação técnica é que a gestão da faixa costeira passe a considerar, de forma integrada, aspectos de geografia, ocupação do solo, dinâmica oceânica e planejamento urbano de cada município.
Casos como o do Estreito do Melão, em Cananéia, no litoral sul, ilustram até que ponto a erosão pode redesenhar a geografia da costa. Segundo pesquisadores que acompanham a região, a erosão avança sobre uma restinga que separa o oceano do Canal do Ararapira, e o rompimento dessa faixa de areia é considerado praticamente inevitável pela própria dinâmica natural do estuário, com estimativa de que uma nova conexão com o mar possa se formar já na década de 2030. BNews
O que esperar para os próximos anos
Diante desse cenário, moradores e turistas de cidades litorâneas devem conviver com mudanças graduais na paisagem da orla, especialmente em temporadas de ressaca e chuvas intensas, quando o processo erosivo tende a se acelerar. Prefeituras da região vêm sendo pressionadas a incorporar os mapas de risco em seus planos diretores, adotando medidas como recuo de construções, recuperação de dunas e manguezais e sistemas de monitoramento costeiro. Para quem frequenta as praias afetadas, a orientação de especialistas é acompanhar os alertas de defesa civil local antes de eventos de forte ressaca, já que a perda de areia pode reduzir de forma repentina o espaço disponível na faixa litorânea.
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