Levantamento do Instituto de Pesquisas Ambientais mapeia vulnerabilidade ao avanço do mar em cidades como Guarujá, Caraguatatuba e Praia Grande
O avanço do mar sobre o litoral brasileiro segue preocupando especialistas e moradores de cidades costeiras. Um levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) mostra que dezenas de praias do litoral de São Paulo apresentam risco elevado ou muito elevado de erosão costeira, fenômeno que reduz a faixa de areia e pode comprometer áreas urbanas, ecossistemas e construções próximas à orla.
Quais praias aparecem no mapa de risco
O estudo faz parte da versão atualizada do Mapa de Risco de Erosão Costeira Crônica e Inundação Costeira na Orla Oceânica do Estado de São Paulo, que classifica praias por município e grau de vulnerabilidade ao avanço do mar. Em Guarujá, praias conhecidas e movimentadas como Enseada, Pitangueiras, Astúrias, Tombo e Guaiúba foram classificadas como de risco muito alto. Em Caraguatatuba, Massaguaçu e Martim de Sá também aparecem em situação de alerta, enquanto em São Vicente, que já convive historicamente com os efeitos do avanço do mar, a Praia do Gonzaguinha, além de Itararé e Itaquitanduva, foram apontadas como áreas de risco muito alto.
Já na Praia Grande, praticamente toda a faixa de areia analisada apresenta níveis elevados de vulnerabilidade, segundo o levantamento, o que reforça a extensão do problema ao longo de todo o litoral paulista, e não apenas em pontos isolados de cada município.
Por que a erosão costeira tem se intensificado
Segundo especialistas, cerca de 40% da costa brasileira já sofre com a erosão costeira, fenômeno provocado por uma combinação de fatores que inclui mudanças climáticas, elevação do nível do mar, alterações no regime de chuvas e ações humanas, como a ocupação urbana desordenada. De acordo com o Panorama da Erosão Costeira no Brasil, publicado pelo Ministério do Meio Ambiente, cerca de 60% das praias do país são impactadas por processos erosivos, ao longo de mais de 10 mil quilômetros de costa.
O papel da ocupação urbana no agravamento do problema
A erosão costeira é, em sua origem, um processo natural causado pelo desequilíbrio no balanço sedimentar de uma praia: quando o suprimento de sedimentos trazidos por rios, dunas e falésias é interrompido ou reduzido, ocorre déficit sedimentar e a linha costeira recua. No Brasil, mais da metade da população, cerca de 111 milhões de pessoas, vive no litoral, o que amplia significativamente a pressão sobre o ambiente costeiro e acelera processos que, sem intervenção humana, ocorreriam ao longo de décadas.
Regiões mais vulneráveis fora de São Paulo
O problema não se limita ao litoral paulista. A ilha de Marajó, no Pará, já aparece como uma das regiões mais vulneráveis à erosão costeira e à salinização de aquíferos por avanço marinho no país. Segundo pesquisadores, casos de erosão severa ou extrema, com perdas acima de 3 metros por ano, podem eliminar praias inteiras em poucas décadas, um ritmo que, para efeito de comparação, colocaria em risco uma faixa de areia do tamanho da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, que tem largura média de cerca de 70 metros.
Um caso emblemático em Santa Catarina
O fenômeno também tem sido observado fora de São Paulo. Em Balneário Piçarras, no litoral norte de Santa Catarina, o mar voltou a avançar sobre trechos da orla mesmo após uma obra de alargamento da faixa de areia com investimento superior a R$ 53 milhões, executada entre o molhe da Barra do Rio Piçarras e a área após o molhe da avenida Getúlio Vargas. Imagens recentes mostram recuo da faixa de areia e formação de escarpas durante períodos de maré alta, enquanto a prefeitura local aponta que o movimento reflete a dinâmica natural do mar e mantém monitoramento da área.
O que apontam os dados de monitoramento por satélite
Dados de monitoramento da Nasa também têm sido usados para acompanhar a elevação do nível do mar em escala global e regional, reforçando que a elevação do oceano já impacta praias, dunas, manguezais e cidades costeiras. Embora esses dados não indiquem que todas as praias brasileiras vão desaparecer em curto prazo, eles confirmam um cenário de agravamento para áreas frágeis e expostas, especialmente onde a praia já perde largura de forma constante.
O que esperar da gestão costeira nos próximos anos
Diante desse cenário, especialistas apontam que as respostas mais eficazes combinam planejamento urbano, obras de engenharia como quebra-mares e reposição de areia, e a restauração de ecossistemas costeiros como dunas, manguezais e restingas, além de iniciativas já em curso como o Projeto Orla. Para moradores e turistas de cidades litorâneas, a recomendação de especialistas é acompanhar os boletins de monitoramento costeiro divulgados pelos órgãos ambientais estaduais, já que a vulnerabilidade ao avanço do mar tende a variar significativamente entre diferentes trechos de uma mesma praia.
Fontes:
https://cienciahoje.org.br/artigo/erosao-costeira-o-avanco-das-cidades-e-do-mar/

