Drones e pesquisas científicas começam a transformar grandes volumes de sargaço em dados para monitorar praias e planejar ações costeiras.
O avanço do sargaço nas praias brasileiras ganhou uma nova dimensão nos últimos dias: além de chamar atenção de moradores e turistas, o fenômeno passou a ser acompanhado com ferramentas tecnológicas capazes de medir e mapear a biomassa que chega à faixa de areia. Um estudo divulgado pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que Salinópolis, no Pará, recebeu uma quantidade estimada de 42,8 mil toneladas de sargaço em 2025, em um dos maiores registros já quantificados no país. O levantamento utilizou, entre outras ferramentas, mapeamento aéreo com drones, mostrando como a tecnologia pode ajudar a entender um problema que interfere diretamente na paisagem das praias, no turismo, na pesca e na rotina das cidades costeiras. (Jornal da USP)
A novidade é especialmente importante porque ainda existem lacunas sobre a frequência, a quantidade e a composição dessas algas no litoral brasileiro. Para quem gosta de praia, a questão deixa de ser apenas estética: saber onde, quando e em que volume o sargaço aparece pode ajudar municípios a organizar limpeza, monitoramento ambiental e comunicação com visitantes.
Como drones estão ajudando a medir o sargaço nas praias brasileiras
O uso de drones representa uma mudança importante na forma de acompanhar o sargaço que chega à costa. Em vez de depender somente de observações feitas em pontos isolados da praia, o equipamento pode produzir imagens aéreas de grandes extensões da faixa costeira, permitindo identificar áreas de concentração e estimar a quantidade de biomassa acumulada. Foi justamente esse tipo de recurso que ajudou pesquisadores ligados à USP a dimensionar o episódio ocorrido em Salinópolis, no Pará, onde a estimativa chegou a 42,8 mil toneladas de sargaço em 2025. (Jornal da USP)
A tecnologia também ajuda a transformar uma cena comum para quem está na areia — grandes manchas de algas acumuladas na praia — em informação que pode ser analisada cientificamente. Com imagens e dados de campo, pesquisadores conseguem comparar diferentes áreas, acompanhar mudanças ao longo do tempo e produzir estimativas mais confiáveis sobre a dimensão dos encalhes. Isso é especialmente relevante para cidades turísticas, porque a chegada de grandes volumes de sargaço pode exigir planejamento de equipes, veículos, armazenamento e destinação da biomassa, além de comunicação adequada com moradores e visitantes.
No caso de Salinópolis, o levantamento revelou um desafio logístico expressivo. Segundo a pesquisa divulgada pelo Jornal da USP, apenas aproximadamente 4% das 42,8 mil toneladas estimadas em 2025 foram retiradas das praias, e a operação exigiu, em média, 45 viagens de caminhão por dia durante 11 dias. Os números mostram por que medir previamente o fenômeno pode ser tão importante quanto realizar a limpeza depois que a alga chega à areia. (Jornal da USP)
A tecnologia, portanto, não serve apenas para produzir imagens bonitas do litoral vistas de cima. Ela pode funcionar como uma ferramenta de planejamento para administrações municipais, pesquisadores e órgãos ambientais. Quanto mais preciso for o diagnóstico, maior a possibilidade de dimensionar recursos e evitar que uma grande quantidade de biomassa acumulada pegue a cidade de surpresa.
Por que o monitoramento tecnológico é importante para o turismo de praia
O sargaço faz parte dos ambientes marinhos, mas grandes concentrações acumuladas na faixa de areia podem modificar temporariamente a experiência de quem visita uma praia. A pesquisa da USP destaca que os encalhes mais frequentes no litoral brasileiro podem afetar atividades como turismo e pesca e também dificultar as ações de manejo e remoção da biomassa. O estudo aponta ainda que Pará e Maranhão estão entre os estados brasileiros que registraram os maiores volumes nos últimos anos. (Jornal da USP)
Para o turismo costeiro, ter informação confiável é fundamental. Uma praia que recebe uma grande quantidade de algas pode precisar de uma estratégia diferente daquela adotada em um trecho onde o fenômeno é pequeno e passageiro. Com monitoramento por imagens aéreas e observações em campo, pesquisadores podem ajudar a identificar padrões e fornecer informações úteis para que as cidades litorâneas se preparem melhor.
O problema é que o Brasil ainda não possui uma base sistematizada suficiente sobre todos os episódios de sargaço registrados na costa. Segundo a USP, faltam dados consolidados sobre ocorrência, quantidade e composição dessas algas, o que dificulta o planejamento de monitoramento, manejo e remoção. A própria experiência de Salinópolis mostrou que, mesmo com uma operação reforçada de limpeza, a dimensão do material acumulado pode ser muito superior à capacidade de retirada imediata. (Jornal da USP)
Esse cenário coloca a tecnologia no centro de uma discussão maior sobre o futuro das cidades de praia. Drones, imagens aéreas, sistemas de georreferenciamento e bancos de dados podem contribuir para criar um histórico dos encalhes e ajudar a entender quais regiões são mais afetadas. Para o turista, isso pode significar informações mais precisas antes de escolher um destino; para o morador, pode representar uma gestão mais eficiente da faixa de areia; e para pesquisadores, uma oportunidade de compreender melhor um fenômeno que ainda possui muitas perguntas em aberto.
O que a chegada do sargaço revela sobre o futuro do litoral
A pesquisa recente também mostra que acompanhar o sargaço exige olhar além da limpeza das praias. O fenômeno pode ter consequências ambientais, econômicas e sanitárias, e a USP chama atenção para o potencial de emissão de gases tóxicos quando grandes quantidades de algas se acumulam e se decompõem. Isso significa que o monitoramento precisa considerar não apenas o volume observado na areia, mas também as condições ambientais e os efeitos sobre os ecossistemas e as atividades humanas. (Jornal da USP)
Nesse cenário, a tecnologia pode ajudar a construir uma espécie de “memória digital” das praias brasileiras. Fotografias aéreas, registros georreferenciados e medições periódicas permitem comparar diferentes períodos e descobrir se determinadas áreas apresentam recorrência maior de encalhes. Quanto mais longa for essa série de informações, maior será a capacidade dos pesquisadores de identificar padrões e orientar políticas públicas voltadas para o litoral.
Esse tipo de acompanhamento segue uma tendência já presente em outras pesquisas sobre a costa brasileira. O Serviço Geológico do Brasil (SGB), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolve estudos de dinâmica costeira em Maricá, no Rio de Janeiro, utilizando dados para analisar transformações das praias, áreas vulneráveis a ressacas, erosão e períodos mais críticos de perda de areia. (Sistema de Gestão de Benefícios)
Para quem vive ou viaja para o litoral, a principal mensagem é que uma praia não é um cenário estático. A faixa de areia muda com marés, ondas, chuvas, ressacas, erosão e fenômenos naturais que podem alterar rapidamente as condições locais. A tecnologia entra justamente para ajudar a transformar essas mudanças em informações que possam ser acompanhadas com mais precisão. No caso do sargaço, o desafio agora é ampliar o monitoramento para que episódios como o de Salinópolis deixem de ser conhecidos apenas depois que toneladas de algas já chegaram à praia.
O avanço dessas ferramentas também reforça a importância de integrar ciência, municípios e órgãos ambientais. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por exemplo, mantém bases de dados de biodiversidade e registros de ocorrência de espécies, mostrando como informações sistematizadas são importantes para compreender e proteger os ambientes naturais brasileiros. (IPT)
Para o amante do mar, acompanhar esse movimento significa entender que inovação não está apenas nos aplicativos de viagem ou nos equipamentos usados para surfar. Ela também está nos drones que observam a costa, nos mapas que mostram mudanças na areia e nos dados que ajudam pesquisadores a compreender o que acontece entre o oceano e a faixa de praia. O caso do sargaço em Salinópolis mostra que, quanto melhor o litoral for monitorado, maiores serão as chances de antecipar problemas, proteger os ecossistemas e manter as praias preparadas para moradores e visitantes.
Fontes: Jornal da USP — pesquisa sobre o avanço do sargaço no litoral brasileiro ·
Serviço Geológico do Brasil — Projeto Dinâmica Costeira em Maricá ·

