Nova tecnologia usa câmeras e inteligência artificial para identificar surfistas, registrar ondas e facilitar a escolha do melhor momento para entrar no mar.
Quem gosta de praia já sabe que uma boa sessão de surf depende de muito mais do que chegar à areia com a prancha. Vento, ondulação, período das ondas, direção do swell e movimento do mar podem mudar rapidamente, fazendo com que o cenário encontrado na chegada seja bem diferente daquele indicado pela previsão. É justamente nesse intervalo entre a previsão e o que acontece de fato no oceano que uma nova geração de ferramentas digitais começa a ganhar espaço no litoral brasileiro.
No Rio de Janeiro, uma tecnologia recente combina câmeras instaladas em diferentes praias, informações sobre as condições oceânicas e inteligência artificial para acompanhar o surf praticamente em tempo real. A plataforma SurfConnect passou a utilizar IA para reconhecer surfistas e transformar automaticamente ondas captadas pelas câmeras em vídeos. A novidade interessa não apenas a quem pratica o esporte, mas também a moradores, turistas e pessoas que querem entender melhor as condições de praias como Ipanema, Copacabana, Leblon, Barra, Recreio e outras áreas da costa fluminense.
Como a inteligência artificial está mudando a experiência de quem surfa no litoral
A principal mudança provocada pela tecnologia está na maneira de observar o mar. Em vez de depender exclusivamente de uma previsão meteorológica ou de uma transmissão contínua, o usuário pode acompanhar imagens de pontos específicos do litoral e ter uma percepção mais próxima do que está acontecendo naquele momento. A SurfConnect reúne imagens de 34 câmeras distribuídas por praias e pontos do litoral do Rio, criando uma espécie de janela digital para diferentes trechos da costa.
A inteligência artificial entra justamente para interpretar parte dessas imagens. Segundo informações divulgadas sobre a plataforma, o sistema Netuno IA consegue identificar surfistas em tempo real e separar automaticamente os momentos em que uma onda é surfada, transformando essas passagens em clipes. Para o praticante, isso significa uma forma mais simples de rever uma sessão, encontrar determinadas ondas e acompanhar sua própria atividade sem depender de alguém filmando cada tentativa.
Esse tipo de recurso também mostra como a tecnologia está aproximando o mundo digital da rotina das praias. Durante muito tempo, aplicativos de surf foram usados principalmente para consultar previsão de ondas, vento e maré. Agora, a tendência é combinar previsão, imagens reais e inteligência artificial em uma mesma experiência. Um exemplo é o aplicativo SurfView, que passou a oferecer um assistente de IA capaz de ajudar na consulta das condições do mar, previsão, vento e ondulação, além de permitir alertas personalizados para determinados picos.
Na prática, a tecnologia não elimina a necessidade de conhecer o mar. Ela funciona como uma camada adicional de informação para quem pretende planejar uma ida à praia, observar um pico específico ou decidir se vale a pena esperar mais algum tempo antes de entrar na água. Para o turismo costeiro, isso pode representar uma evolução importante: o visitante consegue chegar mais preparado e escolher melhor como aproveitar seu tempo à beira-mar.
Dá para confiar na tecnologia para saber se a praia está boa?
Apesar dos avanços, existe uma diferença importante entre saber se há boas ondas e saber se uma praia está adequada para banho. A inteligência artificial pode interpretar imagens, enquanto previsões e modelos ajudam a estimar condições do oceano, mas nenhum desses recursos substitui os dados oficiais de qualidade da água ou a atenção às condições locais. Para quem vai à praia, essa distinção é fundamental, especialmente depois de chuvas fortes, quando a qualidade da água pode mudar e a recomendação de banho precisa ser consultada em fontes ambientais confiáveis.
Em São Paulo, por exemplo, a CETESB mantém um sistema oficial de acompanhamento da balneabilidade das praias, com classificações semanais por município e informações sobre pontos próprios ou impróprios para banho. O sistema disponibilizado pela companhia permite consultar diferentes praias e acompanhar as medições realizadas ao longo do ano.
No Rio de Janeiro, ferramentas digitais também vêm facilitando o acesso a informações ambientais. O aplicativo Beach In Rio, atualizado em agosto de 2026, permite consultar a situação mais recente da balneabilidade, visualizar praias em um mapa e acessar informações relacionadas aos pontos de coleta. Os dados estão vinculados ao monitoramento oficial do Instituto Estadual do Ambiente, o que reforça a importância de diferenciar aplicativos que organizam informações de serviços que efetivamente produzem o monitoramento ambiental.
Para o turista, a combinação dessas informações pode ser muito mais útil do que simplesmente procurar uma resposta para “qual praia está boa hoje?”. Antes de sair, vale verificar a previsão do tempo, as condições de ondas e vento, a maré e a balneabilidade. Também é importante observar avisos locais, mudanças repentinas no mar e orientações dos órgãos responsáveis pela segurança. A tecnologia ajuda a enxergar melhor o cenário, mas a decisão de entrar na água continua dependendo das condições reais encontradas na praia.
O que essa tecnologia pode representar para o turismo de praia
A expansão da inteligência artificial no surf revela uma transformação mais ampla na relação entre tecnologia e litoral. Câmeras, sensores, aplicativos e sistemas de análise de dados podem fazer com que informações antes restritas a especialistas se tornem mais acessíveis para quem vive ou visita cidades costeiras. No caso do surf, isso significa acompanhar um pico específico, observar a movimentação das ondas e até guardar registros das sessões. Para destinos turísticos, a tecnologia também cria novas possibilidades de divulgação das praias e de interação com visitantes.
Esse movimento acontece em um momento em que o monitoramento digital do litoral ganha importância por diferentes razões. Pesquisas sobre dinâmica costeira, por exemplo, utilizam dados e tecnologias para compreender mudanças nas praias, identificar áreas vulneráveis à erosão e analisar os efeitos das transformações climáticas. Em Maricá, no Rio de Janeiro, o Serviço Geológico do Brasil e a Universidade Federal do Rio de Janeiro desenvolvem estudos para acompanhar a evolução da costa e identificar trechos mais suscetíveis a ressacas e perda de areia.
O próximo passo tende a ser justamente a integração dessas diferentes fontes. Previsão meteorológica, observação por câmeras, dados oceânicos, balneabilidade e informações ambientais podem formar um retrato cada vez mais completo de uma praia. Para quem viaja, isso pode significar escolher melhor o destino e o horário; para quem mora no litoral, pode facilitar o acompanhamento cotidiano das condições do mar; e para surfistas, pode tornar o planejamento das sessões muito mais preciso.
Ainda assim, existe uma regra que continua valendo mesmo em um litoral cada vez mais conectado: tecnologia não substitui experiência, sinalização ou orientação das autoridades. Uma câmera pode mostrar uma onda bonita, mas não necessariamente revela todos os riscos existentes na água. Da mesma maneira, uma previsão pode indicar boas condições e sofrer alterações ao longo do dia. O melhor uso da inteligência artificial é como ferramenta de apoio, combinando informação digital com conhecimento local e atenção ao ambiente.
Para o amante do mar, a novidade é especialmente interessante porque transforma algo imprevisível em uma experiência um pouco mais observável. O oceano continuará mudando, mas agora parte dessas mudanças pode ser acompanhada por telas, câmeras e sistemas capazes de interpretar grandes volumes de informação. No litoral brasileiro, onde surf, turismo e vida cotidiana estão diretamente ligados às condições do mar, essa evolução tecnológica pode ajudar a planejar melhor os momentos na praia.
A tendência também aponta para um futuro em que escolher uma praia poderá envolver muito mais do que consultar uma previsão genérica. O visitante poderá observar imagens recentes, conferir a qualidade da água, analisar vento e ondulação e descobrir quais trechos estão mais adequados para diferentes atividades. A tecnologia não muda a essência de um dia de praia, mas pode ajudar a aproveitar o litoral com mais informação, planejamento e consciência ambiental.
Fontes utilizadas
- Veja Rio — “Surfe em tempo real: a chegada da IA nos vídeos de surfistas no Rio” VEJA RIO
- SurfConnect — site oficial SurfConnect
- Diário do Rio — “Plataforma usa IA para monitorar praias do Rio em tempo real” Diário do Rio
- CETESB — Praias Litorâneas CETESB
- CETESB — Mapa de Qualidade das Praias CETESB ArcGIS
- INEA — Balneabilidade das praias INEA
- Beach In Rio — Google Play Google Play
- Serviço Geológico do Brasil — Projeto Dinâmica Costeira em Maricá sgb.gov.br

