Nova faixa de areia muda o litoral de Santa Catarina e coloca em destaque a proteção costeira, o turismo e o futuro das praias brasileiras.
A praia mudou de tamanho em Itapoá, no Litoral Norte de Santa Catarina. A cidade concluiu, em 24 de agosto, uma intervenção que ampliou em 8,8 quilômetros a faixa de areia das praias Figueira do Pontal, Pontal do Norte e Princesa do Mar, em um projeto considerado o maior alargamento de praia já realizado no Brasil em extensão. A faixa ganhou entre 50 e 200 metros, utilizando aproximadamente 6 milhões de metros cúbicos de areia retirada durante a dragagem da Baía da Babitonga.
Para quem gosta de praia, a novidade vai muito além de uma orla aparentemente maior. O projeto envolve erosão costeira, dinâmica da areia, proteção contra ressacas, turismo, atividade portuária e preservação ambiental. E justamente por isso surge uma dúvida importante para moradores e visitantes: o que muda para quem frequenta Itapoá e o que ainda precisa ser acompanhado antes de considerar a nova faixa de areia uma transformação definitiva?
O que mudou nas praias de Itapoá e por que a obra chama atenção
A intervenção realizada em Itapoá começou em outubro de 2025 e avançou por três trechos da costa: Pontal do Norte, Princesa do Mar e Figueira do Pontal. Ao final, foram 8,8 quilômetros de orla modificados, com aumento da faixa de areia entre 50 e 200 metros. O volume utilizado chegou a aproximadamente 6 milhões de metros cúbicos de sedimentos retirados da Baía da Babitonga durante a dragagem do canal de acesso aos portos da região.
O tamanho da intervenção ajuda a explicar por que o projeto ganhou tanta atenção no litoral brasileiro. Segundo as informações divulgadas sobre a obra, Itapoá superou o antigo recorde de Matinhos, no Paraná, onde 6,3 quilômetros de praia haviam sido ampliados com cerca de 3,2 milhões de metros cúbicos de areia. Em Itapoá, a proposta também teve uma característica inédita: sedimentos provenientes de uma dragagem portuária foram aproveitados na alimentação artificial da praia.
Para o turista, uma faixa de areia mais larga pode significar mais espaço para circulação, lazer e atividades de praia, especialmente em períodos de maior movimento. Para os moradores, entretanto, a questão é mais ampla, porque uma praia artificialmente alimentada precisa ser acompanhada para verificar como a areia se comportará diante das ondas, correntes, ventos e ressacas. A própria Prefeitura de Itapoá mantém monitoramento do perfil das praias desde 2020, e o município já identificou diferenças importantes entre áreas preservadas e trechos sujeitos à erosão.
Outro ponto importante é que a obra não foi realizada apenas pensando no turismo. O projeto está ligado à dragagem da Baía da Babitonga, que busca aumentar a profundidade do canal para permitir a circulação de embarcações maiores no complexo portuário. A intervenção recebeu investimento de aproximadamente R$ 333 milhões, sendo R$ 300 milhões do Porto Itapoá e R$ 33 milhões do Porto de São Francisco do Sul.
Por que a nova faixa de areia ainda precisa de monitoramento ambiental
A imagem de uma praia maior pode impressionar, mas o comportamento de uma costa não pode ser avaliado apenas pela quantidade de areia colocada inicialmente. A areia está sempre em movimento, transportada pelas ondas, correntes e ventos, e uma intervenção desse porte pode modificar a dinâmica sedimentar local. Por isso, após a conclusão dos 8,8 quilômetros, ainda está previsto um período de acompanhamento ambiental de 36 meses, incluindo observação do perfil da praia e ações de recuperação de dunas e restinga.
Esse cuidado é especialmente relevante porque praias, dunas e restingas formam um sistema costeiro integrado. O ICMBio destaca que o bioma Marinho Costeiro reúne ambientes como praias, dunas, restingas, manguezais, estuários e costões rochosos, todos ligados a uma biodiversidade expressiva. Em áreas protegidas administradas pelo instituto, como o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, a conservação da restinga e das lagoas costeiras é tratada como elemento essencial para manter a biodiversidade e também possibilitar turismo e lazer de maneira sustentável.
Em Itapoá, o planejamento ambiental inclui a implantação de dunas e o plantio de vegetação nativa para ajudar na estabilização da areia. Informações divulgadas sobre o projeto apontam que mais de 180 mil mudas de seis espécies já haviam sido plantadas em 31 áreas, enquanto o sistema de dunas previsto terá entre 1 e 1,5 metro de altura e aproximadamente 26 metros de largura. Também está previsto acompanhamento da pesca artesanal para identificar eventuais impactos da intervenção sobre a atividade.
A preocupação faz sentido porque a vegetação costeira tem uma função que vai muito além da paisagem bonita. Material técnico do ICMBio aponta que a remoção ou degradação de dunas e da vegetação de restinga pode aumentar a vulnerabilidade da praia diante de tempestades, ressacas e elevação do nível do mar. Para o amante do litoral, isso significa que uma praia saudável não é apenas aquela com bastante areia: é também aquela que mantém suas áreas naturais funcionando como proteção e abrigo para espécies.
A qualidade da água também continua sendo um fator independente da largura da faixa de areia. Em São Paulo, por exemplo, a CETESB mantém acompanhamento semanal da balneabilidade das praias e disponibiliza classificação por município, mostrando como a condição para banho precisa ser monitorada continuamente. A lição vale para qualquer destino costeiro: uma praia visualmente ampla não significa automaticamente que a água esteja própria para banho, e o visitante deve sempre consultar os boletins oficiais antes de entrar no mar.
O que a obra representa para o turismo e para o futuro do litoral brasileiro
Itapoá tem cerca de 32 quilômetros de litoral e está entre os destinos costeiros que vêm recebendo atenção por causa da expansão urbana, da atividade portuária e dos desafios relacionados à erosão. A conclusão da obra pode aumentar o espaço disponível para lazer e contribuir para a valorização da orla, mas seus efeitos turísticos dependerão de fatores que vão muito além da quantidade de areia. A conservação das dunas, a qualidade da água, o ordenamento urbano, a infraestrutura, a segurança e a preservação dos ecossistemas serão decisivos para transformar a nova faixa de areia em benefício duradouro.
O movimento já pode ser observado no planejamento municipal. Depois de concluir os 8,8 quilômetros, Itapoá passou a avaliar estudos para outro trecho de aproximadamente nove quilômetros, entre áreas como Centro, Itapema do Norte e Cambijú. A Prefeitura, porém, ainda não tem uma segunda obra contratada: antes de qualquer nova intervenção, estão previstos estudos ambientais e projetos de engenharia para avaliar erosão, correntes marítimas, movimentação dos sedimentos, disponibilidade de areia e possíveis impactos sobre fauna, restinga e pesca.
Esse cuidado pode servir de referência para outras cidades brasileiras que enfrentam o avanço do mar. A chamada “engorda de praia” pode aumentar temporariamente a largura da faixa arenosa, mas não deve ser encarada como solução automática para todos os problemas costeiros. Cada praia possui uma dinâmica própria, e intervenções feitas sem diagnóstico adequado podem gerar efeitos diferentes daqueles esperados, especialmente quando existem dunas degradadas, ocupação urbana próxima da água ou alterações nas correntes e no transporte natural de sedimentos.
Para o turismo de praia, a principal mensagem é que uma orla maior pode ser uma oportunidade, mas precisa vir acompanhada de planejamento. Quem visita Itapoá deve aproveitar a nova paisagem sem esquecer que dunas e áreas de restinga são partes importantes do ambiente costeiro e não devem ser usadas como estacionamento, passagem improvisada ou espaço para retirada de vegetação. O turismo sustentável começa justamente quando o visitante entende que a praia não termina na linha onde a areia encontra o mar.
A experiência catarinense também reforça uma tendência que deve ganhar espaço no litoral brasileiro: obras de infraestrutura precisam ser analisadas junto com seus impactos ambientais e sociais. O reaproveitamento de sedimentos da dragagem pode representar uma alternativa interessante, mas o resultado precisa ser medido ao longo do tempo. Monitorar a linha de costa, a vegetação, a fauna, a pesca e as condições da praia será tão importante quanto concluir a obra física.
A nova Itapoá, portanto, ainda está em fase de observação. Os 8,8 quilômetros de areia já foram entregues, mas os próximos anos dirão como essa faixa vai responder às forças naturais do litoral. Para moradores, surfistas, famílias e turistas, vale acompanhar não apenas a aparência da praia, mas também os indicadores ambientais e as orientações das autoridades. Afinal, no litoral, a melhor praia não é necessariamente a maior: é aquela que consegue equilibrar lazer, segurança, economia e conservação da natureza.
Fontes utilizadas
- Folha de S.Paulo — conclusão do alargamento de 8,8 km em Itapoá
- NSC Total — novo alargamento e contexto da orla de Itapoá
- O Correio do Povo — Itapoá ganha 8,8 km de praia em obra inédita
- Visor Notícias — conclusão do maior alargamento de praias do Brasil em SC
- Gazeta do Povo — detalhes da execução e extensão da obra
- CETESB — Mapa de Qualidade das Praias Litorâneas
- CETESB — informações oficiais sobre balneabilidade das praias
- Governo Federal/ICMBio — informações sobre ambientes e biodiversidade marinho-costeira

