Enquanto boa parte da tecnologia aplicada ao turismo costeiro ganha as manchetes por facilitar a experiência do banhista, uma outra frente de inovação trabalha silenciosamente para proteger vidas e patrimônio na orla paulista. Trata-se de um sistema de modelagem numérica que consegue prever, com dias de antecedência, o comportamento do mar diante da chegada de frentes frias e ciclones extratropicais, uma ferramenta que já se tornou rotina no litoral de São Paulo.
O funcionamento se baseia na combinação de diferentes fontes de dados e modelos matemáticos. Os boletins são emitidos com base no sistema IARA-BS/SACI-BS da Sala de Situação da Baixada Santista e no sistema AquaSafe Santos, uma estrutura que reúne pesquisa acadêmica e monitoramento em tempo real para gerar previsões cada vez mais precisas sobre o nível do mar e a altura das ondas.
Como a tecnologia antecipa o risco de inundação
O centro dessa operação está em uma universidade da região. De acordo com os modelos NPH-UNISANTA, o sistema utiliza dados medidos pelos marégrafos da Praticagem de São Paulo, comparando-os com a previsão da tábua de marés para gerar alertas de atenção e alerta conforme critérios definidos nos planos municipais de contingência. Essa comparação entre o previsto e o medido é o que permite ajustar as previsões quase em tempo real, aumentando a confiabilidade dos boletins divulgados à população.
Os modelos utilizados também combinam diferentes ferramentas de simulação para reduzir margens de erro. A previsão dos modelos hidrodinâmicos utiliza os sistemas Mohid e Delft3D para apresentar o nível do mar nas estações de referência, incluindo a Baía de Santos e o interior do estuário. Ao cruzar diferentes metodologias de cálculo, os pesquisadores conseguem oferecer uma margem de segurança maior para prefeituras e defesas civis tomarem decisões preventivas.
Um histórico recente de alertas cada vez mais frequentes
Ao longo de 2026, o litoral paulista já registrou diversos episódios de mar agitado associado a frentes frias. Em um dos boletins mais recentes, o fortalecimento de uma área de alta pressão sobre o Sudeste favoreceu a entrada de ar mais frio e úmido, mantendo temperaturas amenas e condições favoráveis para precipitações na Baixada Santista, com ventos que voltaram a se intensificar e rajadas de até 50 km/h. Episódios como esse se tornaram praticamente mensais neste ano, o que reforça a importância de um sistema de previsão consolidado e acessível ao público.
Em outro boletim divulgado em julho, o alerta chegou a níveis ainda mais altos. A previsão indicava máximos de 1,9 metro na orla e 2,1 metros no interior do estuário, com aumento de 60 centímetros de maré meteorológica em relação à tábua de marés, além de ondas que poderiam ultrapassar 3 metros de altura significativa. Números como esses ajudam a dimensionar o quanto a combinação entre maré alta, ventos fortes e ressaca pode ampliar o risco de alagamentos em áreas mais baixas da orla.
O impacto direto na segurança da população
Esse tipo de monitoramento não é apenas um exercício acadêmico. Ele tem relação direta com a segurança de moradores e turistas, especialmente em períodos de forte agitação marítima. No início deste ano, episódios de ressaca intensa já haviam mostrado o risco real que o mar agitado representa. O início de 2026 registrou uma série de incidentes fatais e desaparecimentos no litoral paulista, mobilizando o Grupamento de Bombeiros Marítimo em diversas cidades da Baixada Santista, com um total de 14 mortes contabilizadas na região.
Diante desse histórico, a antecipação de cenários críticos ganha ainda mais relevância. Quando o sistema aponta risco elevado, as prefeituras podem agir com antecedência. O alerta é emitido pelo Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Universidade Santa Cecília e pela Sala de Situação da Baixada Santista, apontando risco de alagamentos e inundações costeiras pontuais devido à combinação de ressaca, maré elevada e ventos fortes. Esse tipo de informação permite que a Defesa Civil oriente moradores de áreas de risco antes mesmo de o fenômeno atingir seu pico.
Transparência e acesso público às informações
Um dos diferenciais desse sistema é a disponibilização gratuita e detalhada dos boletins, algo que amplia o alcance da tecnologia para além dos órgãos públicos. Atualizações e mais detalhes das previsões por município estão disponíveis publicamente para consulta, permitindo que moradores, pescadores, comerciantes de praia e operadores de turismo também se planejem com base nas mesmas informações usadas pela Defesa Civil.
Essa democratização do acesso à informação técnica é um dos aspectos mais relevantes da iniciativa. Em vez de restringir os dados a boletins internos de prefeituras, o sistema permite que qualquer pessoa interessada acompanhe a evolução das condições do mar, adaptando planos de viagem, atividades náuticas ou simplesmente decisões sobre ir ou não à praia em dias de alerta. Com a frequência crescente de frentes frias e eventos extremos ao longo do ano, ferramentas como essa devem seguir ganhando espaço como parte essencial da rotina de quem vive e visita o litoral paulista.
Fontes:
https://noticias.unisanta.br/nph-destaque/boletim-nph-unisanta-no-15-2026-1-07
https://www.agem.sp.gov.br/habit_ag_santista/noticias/boletim_informativo_n_08_2026

