Proposta de campanha reacende debate sobre turismo, ocupação da orla, licenciamento ambiental e preservação de um dos trechos mais sensíveis do litoral brasileiro.
Angra dos Reis voltou ao centro do debate político nacional depois que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) defendeu, em agenda de campanha realizada em 29 de agosto, a aceleração de licenciamentos ambientais para permitir novos resorts, condomínios e grandes empreendimentos turísticos na Costa Verde do Rio de Janeiro. A proposta envolve diretamente Angra dos Reis, Paraty e Mangaratiba, municípios conhecidos pelas praias, ilhas, Mata Atlântica e forte vocação para turismo náutico. (UOL Notícias)
Para quem vive, trabalha ou costuma viajar para essa região, a discussão vai muito além da política eleitoral. A pergunta que surge é: o que pode acontecer com as praias e com o turismo de Angra se as regras para grandes empreendimentos forem flexibilizadas? A resposta passa por investimentos, geração de empregos e infraestrutura, mas também por preservação ambiental, planejamento urbano, saneamento e capacidade de receber mais visitantes sem comprometer justamente os atrativos que fazem da Costa Verde um dos destinos mais desejados do país.
O que Flávio Bolsonaro propôs para o turismo de Angra dos Reis
Durante a agenda em Angra dos Reis, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende destravar processos de licenciamento ambiental e revisar regras urbanísticas para facilitar investimentos turísticos de grande porte. Entre as propostas apresentadas estão a construção de resorts e condomínios, além da utilização de parcerias público-privadas para ampliar a infraestrutura da Costa Verde. O argumento apresentado pelo candidato é que a região possui potencial para competir com destinos internacionais e poderia atrair visitantes que atualmente escolhem outros países para suas férias. (UOL Notícias)
A ideia também está relacionada a uma discussão antiga sobre como transformar o potencial turístico de Angra em atividade econômica de maior escala. O governo do Rio descreve a Costa Verde como uma região formada por Angra dos Reis, Itaguaí, Mangaratiba e Paraty, marcada pela combinação entre Mata Atlântica, águas costeiras, ilhas, ecoturismo, gastronomia e turismo de alto padrão. (Turismo RJ) Para o visitante, isso significa que qualquer expansão da rede hoteleira pode trazer benefícios concretos, como novos serviços, empregos, restaurantes, passeios de barco e infraestrutura. Mas existe uma condição essencial: crescimento turístico não é sinônimo automático de desenvolvimento sustentável, principalmente em uma área onde montanhas, florestas, praias, manguezais e ilhas estão muito próximos uns dos outros.
A proposta ganhou repercussão justamente porque mexe em um ponto sensível: licenciamento ambiental. A licença não é simplesmente uma autorização burocrática para construir, mas parte do processo usado para avaliar impactos de atividades potencialmente capazes de afetar o meio ambiente. Em Angra, a própria legislação municipal reúne regras específicas para áreas de interesse ambiental, cultural e turístico, além de normas sobre fiscalização e utilização de espaços costeiros. (Prefeitura de Angra dos Reis)
Por que o licenciamento ambiental é tão importante para as praias
Em uma região costeira como a Costa Verde, grandes empreendimentos podem provocar efeitos que vão muito além do terreno onde são instalados. A construção de um resort, por exemplo, pode aumentar a circulação de pessoas, veículos e embarcações, pressionar redes de água e esgoto, modificar o uso do solo e elevar a demanda por serviços públicos. Dependendo da localização, também pode haver impactos sobre vegetação, cursos d’água, áreas de encosta, fauna e ecossistemas marinhos. Por isso, acelerar processos não deveria significar eliminar etapas de avaliação, fiscalização ou participação pública.
Um exemplo recente ajuda a dimensionar a complexidade desse tipo de planejamento. Em julho, o Ibama informou que realizou audiências públicas em Mangaratiba e Angra dos Reis para discutir os estudos ambientais relacionados à duplicação da BR-101/RJ. Segundo o órgão, cerca de 280 pessoas participaram presencialmente das reuniões e outras 2 mil acompanharam as transmissões, mostrando como obras de infraestrutura na região despertam interesse direto da população. (Serviços e Informações do Brasil) O caso também evidencia que grandes projetos precisam considerar diferentes interesses: mobilidade, economia, moradores, turismo, pesca e conservação ambiental.
A própria administração municipal de Mangaratiba, outro município da Costa Verde, aprovou em 2026 um novo Código Municipal de Meio Ambiente que atualizou procedimentos de licenciamento, regularização e fiscalização. A prefeitura afirma que a legislação busca combinar segurança jurídica e eficiência administrativa com proteção ambiental, além de prever instrumentos de compensação para restauração ecológica, parques e infraestrutura verde. (Prefeitura de Mangaratiba) Isso mostra que o debate não precisa ser tratado como uma escolha entre desenvolvimento ou preservação. O desafio real para o litoral é criar regras capazes de permitir investimentos sem transformar praias, encostas e áreas naturais em espaços submetidos a uma ocupação que comprometa sua própria atratividade.
O que pode mudar para moradores e turistas da Costa Verde
Se propostas de expansão de grandes empreendimentos avançarem, o impacto mais visível para quem visita Angra, Paraty e Mangaratiba poderá aparecer na oferta de hospedagem e serviços. Resorts podem aumentar a capacidade de receber turistas, movimentar restaurantes, transportes, passeios náuticos e comércio, além de gerar oportunidades de trabalho. Também podem estimular investimentos em estradas, saneamento, energia e conectividade, especialmente se houver planejamento conjunto entre municípios e governos. Para um destino turístico, esse tipo de infraestrutura pode melhorar a experiência de quem chega e também a rotina de quem mora permanentemente na região.
Mas o crescimento precisa considerar a capacidade ambiental e urbana de cada localidade. Angra dos Reis, por exemplo, possui uma enorme diversidade de praias e ilhas, enquanto Paraty reúne patrimônio histórico e áreas naturais de grande importância. Mais visitantes significam maior pressão sobre resíduos, água, esgoto, trânsito e transporte marítimo. A própria Prefeitura de Angra mantém regras específicas para o turismo náutico e orienta visitantes a contratar serviços regularizados, enquanto normas municipais tratam da utilização de embarcações e da disposição de resíduos nas praias. (Prefeitura de Angra dos Reis)
Existe ainda uma questão que interessa diretamente ao amante do mar: a qualidade da experiência turística depende da preservação dos recursos naturais. Não adianta transformar uma praia em destino de luxo se a expansão vier acompanhada de problemas de saneamento ou degradação ambiental. A CETESB, por exemplo, mantém acompanhamento sistemático da balneabilidade no litoral paulista, mostrando como a qualidade da água é um indicador essencial para a segurança de banhistas e para a atividade turística. (CETESB Sistemas Inter) Embora os dados sejam de São Paulo, o princípio é válido para qualquer destino costeiro: água limpa, praias conservadas e infraestrutura adequada são parte do produto turístico.
Para a Costa Verde, portanto, o ponto central da discussão política não é apenas quantos resorts poderão ser construídos. É onde, como e sob quais regras esses empreendimentos poderiam surgir. Um projeto localizado em área adequada, com saneamento, estudos ambientais consistentes, controle de ocupação e contrapartidas pode ter efeitos econômicos diferentes de uma expansão desordenada. A região também possui áreas protegidas e unidades de conservação que precisam ser consideradas no planejamento, incluindo territórios acompanhados pelo ICMBio. O equilíbrio será decisivo para que o turismo continue dependendo daquilo que tornou Angra famosa: mar, praias, ilhas e Mata Atlântica.
A proposta apresentada por Flávio Bolsonaro coloca novamente a Costa Verde no mapa das grandes discussões sobre o futuro do turismo brasileiro. Para moradores, empresários e turistas, o assunto merece atenção porque decisões tomadas agora podem influenciar preços, infraestrutura, empregos, acesso às praias e conservação ambiental durante muitos anos. O caminho mais seguro para o litoral é aquele em que investimento e planejamento caminham juntos, com licenciamento técnico, fiscalização e transparência. Afinal, o maior patrimônio de Angra dos Reis, Paraty e Mangaratiba não está apenas nos empreendimentos que podem ser construídos, mas no mar, nas praias, nas ilhas e na natureza que fazem milhões de pessoas quererem conhecer a região.
Fontes:
- Folha de S.Paulo — Flávio Bolsonaro defende Angra 3 e licenças para obras de resorts (Folha de S.Paulo)
- UOL — Flávio defende destravar licenças ambientais para liberar resorts em Angra . (UOL Notícias)
- Gazeta do Povo — Flávio Bolsonaro quer retomar Angra 3 e resorts na cidade fluminense (gazetadopovo.com.br)
- Ibama — Dados de licenças ambientais
- Prefeitura de Mangaratiba — Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (prefeitura.mangaratiba.rj.gov.br)
- ICMBio — Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (sejaumvoluntario.sisicmbio.icmbio.gov.br)

